Crónica de Ana Marques para a revista Máxima de Maio

Há coisas que temos de partilhar, porque nos dizem algo e nos fazem sentir protagonistas da história....



" A pergunta repete-se. Quando faz anos é inevitável. Então agora que passou dos trinta. Também nos jantares de amigas. Quando uma delas traz a novidade, nem se fala. Lá volta a sacramental questão. Há até quem já tenha inventado mil maneiras de a colocar, umas mais diplomáticas que outras, na esperança de uma resposta de sim. Deixaram de perguntar para quando. Limitam-se, como um pelotão de fuzilamento, a interrogar: Mas queres ou não queres? Tens de te decidir! Não te resta assim tanto tempo!
A vontade de Graça é entregar-lhes um não definitivo que encerre o assunto de uma vez por todas. As amigas têm as hormonas num rodopio. Cheiram a leite e a fertilidade. A começo de vida. Têm retratos de pezinhos e de bebés imersos em folhos, espalhados pelos quatro cantos da casa.
Pontapeiam brinquedos estridentes a cada dois passos. Ignoram migalhas de bolacha Maria que o cão vai aspirando. Prometem não trazer à baila o tema crianças, porque afinal é um jantar de amigas a lembrar tempos de independência mas a emancipação esgota-se depois de mencionar o último hotel de charme onde passaram um fim de semana, que era para ser a dois, mas que a indisponibilidade de última hora da avó transformou numas mini férias românticas a cinco.
Daí a desfiar matérias como: amamentação ou suplemento; baby sitters que atendem mais o telemóvel que o choro da criança; empregadas que não aparecem nem avisam; tampas de caneta que saem no cocó; três mudas de lençóis entre as duas e as quatro da manhã.... Encantos da maternidade que quase enojam Graça mas que as amigas, da vida inteira, parecem relatar num misto de enfado e alegria. E tu, Graça? O que andas tu a fazer com a tua vida?
No fim do jantar, depois das gargalhadas e do caos feliz que são estes encontros, leva para casa um sabor amargo a incerteza. Aquelas pessoas já não lhe pertencem. Ou será ela que não lhes pertence mais? Simplesmente porque o seu caminho segue na estrada de sempre e, sabe-se lá porquê, perdeu o desvio da via rápida. Elas correm todas ao mesmo ritmo. Os dias escapam-lhes. O tempo some-se.
À Graça sobra-lhe e é bom. As noites são suas. Os fins de semana planeou-os com cuidado.
A família não compreende mas respeita.
Eu não vou ter filhos!
Não podes ter filhos, minha querida?
Posso mas não quero!
Quem iria testemunhar a sua vida? Prolongá-la? Dar-lhe sentido?
A minha vida não se cumpre pela maternidade!
Não sabes! É o milagre maior! Há tanta gente que quer e não pode! Não faças isso a ti própria, podes arrepender-te! Pode ser tarde demais!
Já não argumenta. Sente o peso de uma sociedade inteira aos ombros. Uma obrigação de género que lhe ensinaram desde menina. As mulheres nasceram com o privilégio supremo de procriar. Nem todas. E eu posso decidir sobre a minha vida. Sou feliz apenas comigo por companhia.... E o que vejo tantas vezes na escolha das minhas amigas é que os filhos aparecem por múltiplas razões, onde o amor não está no lugar mais nobre da equação: têm filhos para cumprir o casamento, porque isso une o casal, porque há um relógio biológico implacável, porque querem fazer dos pais avós, para que alguém olhe por nós na velhice, porque as hormonas andam aos saltos.... E ainda o que mais me irrita é quando perguntam a uma mulher, acabadinha de parir: então quando é que lhe dás um maninho?
Graça não é militante da causa. Apenas fez uma escolha. Talvez saia cara um dia. Pouco importa. A solidão assusta-me, claro. Mas devemos fazer os filhos para o Mundo e não para nós. "

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